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(André Gandolfo)

O primogênito esperado,
Pedacinho de gente,
Sorrisinho largo,
E uma vida pela frente.

 

O moleque bagunceiro,
Na mente, grande bagagem,
Seu quintal, o mundo inteiro,
Sua vida, uma viagem.

 

O menino curioso,
- Qual o peso que tem as almas?
- Qual é o guerreiro vitorioso?
- Que significa o risco nas palmas?

 

A criança divertida,
O que poderia ser em verdade?
Numa brincadeira invertida
Esconde-esconde da crueldade

 

O filho não entendido,
Carente e bem educado,
De carinho desmedido,
O filho tão amado.

O garoto preguiçoso,
De sujar o pé no barro,
E ouvir o grito cuidadoso,
De quem limpou o chão do carro.

 

O observador relapso,
No pensamento mais fundo,
Um leve colapso,
De encanto e frustração do mundo.

 

O escrevedor pequenino,
Dando passos tão suaves,
Da inocência de um menino,
Ao navegar co'a espaçonave.

 

O músico impaciente,
De saber tudo num segundo,
No violoncello ficou guardado,
Seu segredo mais profundo.

 

O estudante interessado,
Em saber só o que queria,
Biomas, fatos do passado,
Artigos, dissertação e poesia.

 

O poeta bem mais novo,
Carne nova no pedaço,
Recitando para o povo,
Descobrindo seu espaço.

 

O jovem provocado,
Que ama dos corpos sua beleza,
Seu sabor e seu pecado,
Como é da natureza.

 

O fotógrafo nascente,
Onde as formas o olho induz,
Com seu olhar em sua lente,
A escrever também com a luz.

 

O amigo sorridente,
Com o mais puro coração,
De mãos abertas sempre,
Mesmo colhendo ingratidão.

 

O irmão mais velho,
Desatento e cuidadoso
Também durão e pentelho,
Briguento e amoroso.

 

O neto mimado,
Tortas, bolos e pães,
Que tem muitos amados,
Que tem tantas mães.

 

O rapaz ousado,
O prazer era a paz,
Ir mais um pouco,
Chegar um pouco mais

 

O namorado rejeitado,
Que tinha tanto amor,
Mas que vive conformado,
Levando a saudade por onde for.

 

O maluco disfarçado,
O amante do piano,
Dono do sentido figurado,
O esforçado displicente,
O sujeito extrovertido,
O tristonho sorridente,
O orientado perdido,
O príncipe encantado,
O apaixonado descabido;


O ser iluminado.

O falante calado,
O popular sem amigo,
O colega colado,
O bem falado mal entendido,
O sereno tempestuoso,
O espírito sofrido,
O jamais maldoso;

 

O safado espião,
O maromba que desistiu,
O romântico em solidão,
O motorista sangue frio:
Um homem em construção.

O MEU CIÚME

André Gandolfo

 

O meu ciúme
Faz volume nos problemas
Produz a confusão e o dilema
Um pavor

 

O meu ciúme
É perfume pro Vinícius 
É apenas mais um vício
Dito "ultra-amor"

 

O meu ciúme
É estrume pro Caetano 
É até meio desumano
Um desamor

 

O meu ciúme
Estraga, estoura, exclui
Irrita, limita, intui
O meu ciúme, que piada,
Não vale absolutamente nada.

OLHOS DO CORAÇÃO

André Gandolfo

 

Gosto de você

Sinto que já te conheço

Antes mesmo do começo

Da nossa amizade

 

Eu adoro você

Uma alegria desmedida 

Parece ser de outra vida

Esse início de irmandade

 

Me segure pela mão

Te dou o céu do coração

E o melhor do meu carinho

Eu te empresto minha casa

Te recolho em minha asa

Te floreio os caminhos

 

Vem morar no meu abraço

Inundar todo esse espaço

De calor e de magia

E como pede a canção

Seja sempre meu irmão

Pra não faltar a alegria

 

Você vem comigo, sim

Nessa estrada sem fim

Cheia de dor e ilusão

Pra dividirmos todo bem

E enxergarmos mais além

Com olhos do coração

PAIXÃO

André Gandolfo

 

E como são estranhas as paixões,
Semente da flor das ilusões,
Das chagas que maltratam os corações,
Da imaturidade, então.

 

E como são débeis os desejos,
Se perdem na loucura dos ensejos,
O átimo prisioneiro de um beijo,
Da impermanência, e sim.

Tristes são as paixões,
Os fogos ardentes passageiros demais,
Consomem o amor, a fé, o bem,
O carinho, a luz, a paz

HINO DE AMOR

(Homenagem à Irmã Dulce)

André Gandolfo

 

Meu Santo Antônio,
Me ajuda a levar alento,
A cura ao ferimento
E sutilezas para a dor

 

Me ensina a amar
A não esperar nada
A oferecer a alvorada
De um abraço e um pão

 

E ante a tristeza que bater
Ou a dúvida que sondar
Me dê o dom de amar
E de nunca duvidar do amor

 

E ante a noite do mundo
Me dê o bem profundo
De estender o braço
E aliviar o cansaço

 

E o bem há de vencer
O que é de Deus tem seu lugar
E nem pode perecer 
Nem mesmo quando minguar

 

Que minhas mãos abertas
Sejam a alegria certa
A esperança no céu sombrio
E diante da tempestade
Desse mar bravio
Seja meu sorriso o bem
Seja a minha voz e calor
Um reflexo de Tua bondade
Cantando um hino de amor

FILHO DA RUA!

André Gandolfo

 

O menino aprendeu a ler

Vendo o mundo xingar

O menino aprendeu ouvir

Olhando o mundo chorar

 

O menino aprendeu desenho

No desdém dos outros

O menino aprendeu tão pouco

E muito para ensinar

 

O menino aprendeu chorar também

Aprender a mendigar vintém

Desaprendeu os sonhos que pensou

E pensava no ouro que roubou

 

O menino madrugava livre

Preso no que lhe deram a mão

Cativo do que tragava

Prisioneiro de invisível grilhão

 

O menino acordava o dia

Madruga caminhando por aí

E foi chafundando nesses escuros

Que eu nunca mais o vi.

 

André Gandolfo, 2014.